Mudar alguma coisa, para tudo ficar na mesma?

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Criado em domingo, 26 outubro 2008, 18:18
“O desprezo que sentia pelos seus colegas do jornalismo económico tinha a ver com algo que, para ele, era tão límpido como a moralidade. No fundo, uma equação muito simples. O director bancário que estourou milhões em especulações idiotas não devia poder conservar o seu cargo. O empresário que criou empresas de fachada para fazer negócios escuros devia ser preso. O senhorio que obrigava jovens a pagar uma exorbitância, e ainda por cima por baixo da mesa, por um apartamento de uma assoalhada com casa de banho no pátio devia ser exposto no pelourinho. (…) A missão do jornalista económico era investigar e denunciar os tubarões da finança capazes de provocar deliberadamente crises bolsistas para lucrar na especulação e malbaratar as poupanças dos pequenos investidores, escrutinar as administrações das empresas com implacável zelo (…) Não conseguia, por mais que se esforçasse, compreender como podiam tantos jornalistas económicos influentes tratar jovens gestores de terceira categoria como se fossem estrelas de cinema.” (…) Nos últimos 20 anos, os jornalistas económicos suecos tinham-se tornado um grupo de lacaios incompetentes cheios de pesporrência e incapazes de pensamento crítico. Baseava esta conclusão no facto de, permanentemente e sem qualquer objecção, tantos jornalistas da área se limitarem a regurgitar as declarações emitidas por administradores empresariais e especuladores do mercado – mesmo quando essa informação era claramente enganosa ou errada. Por conseguinte, ou esses jornalistas eram tão crédulos e ingénuos que melhor seria dedicarem-se a outra actividade, ou eram pessoas que traíam conscientemente a sua função jornalística. Blomkvist afirmava que muitas vezes se sentira envergonhado a dizer-se jornalista económico, porque ao fazê-lo corria o risco de ser enfiado no mesmo saco com pessoas que nada tinham a ver com o jornalismo.”
Acabo de citar passagens extraídas do livro “Os homens que odeiam as mulheres”, do escritor e jornalista sueco Stieg Larsson, prematuramente falecido em 2004 com apenas 50 anos. Trata-se de um romance policial, onde se fala de amor e como é fácil perceber, também de política e de jornalismo, particularmente o económico. A acção desenrola-se na Suécia e como é fácil concluir o capitalismo e a sua forma de actuar corrupta faz-se sentir, também ali, nas tão faladas democracias nórdicas.
Outra constatação: tudo encaixa em pleno na crise que abala o sistema capitalista e retrata magistralmente a atitude rastejante de alguns jornalistas económicos e não só, com o poder económico especulador e o poder político que o serve, tal como desde logo “lavaram as mãos”, aos primeiros sinais da crise, já estão, de novo, de alma e coração com as “medidas enganosas” de quem pretende “mudar alguma coisa para tudo ficar na mesma”, como dizia o príncipe Salina no filme “O Leopardo” de Visconte.
Sem espinha dorsal aí estão eles curvados e veneradores. Querem lá saber que o sistema a que servilmente obedecem tenha desencadeado uma onda ainda maior de exploração, desemprego, fome e miséria que atinge mais de um bilião de pessoas, conforme está no relatório “Crescimento e Desigualdades” divulgado pela OCDE, que diz que Portugal é um dos países onde é maior o fosso entre ricos e pobres, lado a lado…imaginem, com os EUA. Pior só a Turquia e o México!
Querem lá saber que Michael Foerster, um dos autores do relatório desta organização de 30 países, diga que “as desigualdades de rendimentos e o número de pobres aumentaram durante as duas últimas décadas” e que “o risco de pobreza que atingia mais as pessoas idosas está a deslocar-se para as crianças e jovens”!
Querem lá saber que a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Pescas (FAO), indique que no mundo, 923 milhões de seres humanos passam fome, a que se devem somar mais 75 milhões devido ao aumento do preço dos alimentos e que a produção de agro-combustíveis “comeu” 100 milhões de toneladas de cereais!
Querem lá saber que o desemprego, a fome e a miséria atinja o seu “mundo perfeito” e que o ministério da Agricultura dos EUA confirme que cerca de 33 milhões de norte americanos sobrevivam graças a senhas de alimentação ou que em Portugal, cerca 2,3 milhões de pessoas sejam pobres e que18% da população viva abaixo do limiar da pobreza, isto é, com um rendimento mensal inferior a 360 euros!
Não, não querem saber. Passada a confusão inicial e vendo escapatórias em algumas das medidas, refugiam-se que a culpa não é do sistema mas sim, de uns tantos gananciosos e especuladores sem escrúpulos que violando critérios éticos e filantropos (!), praticaram desmandos financeiros que levaram à irracionalidade dos mercados ao ponto de falarem do capitalismo selvagem e da globalização desumana, que sempre negaram.
O que, capitalistas e seus rastejantes seguidores do jornalismo económico fingem ignorar é o carácter predador do capitalismo e a sua essência exploradora. A sua atenção já está toda virada para os vinte mil milhões de euros do Fundo de Garantia que o Estado português colocou à sua disposição. Ganham de todas as maneiras. Até quando?
O pior da crise vai chegar, muita cambalhota vai acontecer. E, como alguém já disse, “Podem enganar o povo durante algum tempo, mas não em todo tempo”…
Carlos Vale - Membro da DORCB do PCP

“O desprezo que sentia pelos seus colegas do jornalismo económico tinha a ver com algo que, para ele, era tão límpido como a moralidade. No fundo, uma equação muito simples. O director bancário que estourou milhões em especulações idiotas não devia poder conservar o seu cargo. O empresário que criou empresas de fachada para fazer negócios escuros devia ser preso. O senhorio que obrigava jovens a pagar uma exorbitância, e ainda por cima por baixo da mesa, por um apartamento de uma assoalhada com casa de banho no pátio devia ser exposto no pelourinho. (…) A missão do jornalista económico era investigar e denunciar os tubarões da finança capazes de provocar deliberadamente crises bolsistas para lucrar na especulação e malbaratar as poupanças dos pequenos investidores, escrutinar as administrações das empresas com implacável zelo (…) Não conseguia, por mais que se esforçasse, compreender como podiam tantos jornalistas económicos influentes tratar jovens gestores de terceira categoria como se fossem estrelas de cinema.” (…) Nos últimos 20 anos, os jornalistas económicos suecos tinham-se tornado um grupo de lacaios incompetentes cheios de pesporrência e incapazes de pensamento crítico. Baseava esta conclusão no facto de, permanentemente e sem qualquer objecção, tantos jornalistas da área se limitarem a regurgitar as declarações emitidas por administradores empresariais e especuladores do mercado – mesmo quando essa informação era claramente enganosa ou errada. Por conseguinte, ou esses jornalistas eram tão crédulos e ingénuos que melhor seria dedicarem-se a outra actividade, ou eram pessoas que traíam conscientemente a sua função jornalística. Blomkvist afirmava que muitas vezes se sentira envergonhado a dizer-se jornalista económico, porque ao fazê-lo corria o risco de ser enfiado no mesmo saco com pessoas que nada tinham a ver com o jornalismo.”   

Acabo de citar passagens extraídas do livro “Os homens que odeiam as mulheres”, do escritor e jornalista sueco Stieg Larsson, prematuramente falecido em 2004 com apenas 50 anos. Trata-se de um romance policial, onde se fala de amor e como é fácil perceber, também de política e de jornalismo, particularmente o económico. A acção desenrola-se na Suécia e como é fácil concluir o capitalismo e a sua forma de actuar corrupta faz-se sentir, também ali, nas tão faladas democracias nórdicas.

Outra constatação: tudo encaixa em pleno na crise que abala o sistema capitalista e retrata magistralmente a atitude rastejante de alguns jornalistas económicos e não só, com o poder económico especulador e o poder político que o serve, tal como desde logo “lavaram as mãos”, aos primeiros sinais da crise, já estão, de novo, de alma e coração com as “medidas enganosas” de quem pretende “mudar alguma coisa para tudo ficar na mesma”, como dizia o príncipe Salina no filme “O Leopardo” de Visconte.

Sem espinha dorsal aí estão eles curvados e veneradores. Querem lá saber que o sistema a que servilmente obedecem tenha desencadeado uma onda ainda maior de exploração, desemprego, fome e miséria que atinge mais de um bilião de pessoas, conforme está no relatório “Crescimento e Desigualdades” divulgado pela OCDE, que diz que Portugal é um dos países onde é maior o fosso entre ricos e pobres, lado a lado…imaginem, com os EUA. Pior só a Turquia e o México!

Querem lá saber que Michael Foerster, um dos autores do relatório desta organização de 30 países, diga que “as desigualdades de rendimentos e o número de pobres aumentaram durante as duas últimas décadas” e que “o risco de pobreza que atingia mais as pessoas idosas está a deslocar-se para as crianças e jovens”!

Querem lá saber que a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Pescas (FAO), indique que no mundo, 923 milhões de seres humanos passam fome, a que se devem somar mais 75 milhões devido ao aumento do preço dos alimentos e que a produção de agro-combustíveis “comeu” 100 milhões de toneladas de cereais!

Querem lá saber que o desemprego, a fome e a miséria atinja o seu “mundo perfeito” e que o ministério da Agricultura dos EUA confirme que cerca de 33 milhões de norte americanos sobrevivam graças a senhas de alimentação ou que em Portugal, cerca 2,3 milhões de pessoas sejam pobres e que18% da população viva abaixo do limiar da pobreza, isto é, com um rendimento mensal inferior a 360 euros!

Não, não querem saber. Passada a confusão inicial e vendo escapatórias em algumas das medidas, refugiam-se que a culpa não é do sistema mas sim, de uns tantos gananciosos e especuladores sem escrúpulos que violando critérios éticos e filantropos (!), praticaram desmandos financeiros que levaram à irracionalidade dos mercados ao ponto de falarem do capitalismo selvagem e da globalização desumana, que sempre negaram. 

O que, capitalistas e seus rastejantes seguidores do jornalismo económico fingem ignorar é o carácter predador do capitalismo e a sua essência exploradora. A sua atenção já está toda virada para os vinte mil milhões de euros do Fundo de Garantia que o Estado português colocou à sua disposição. Ganham de todas as maneiras. Até quando?

O pior da crise vai chegar, muita cambalhota vai acontecer. E, como alguém já disse, “Podem enganar o povo durante algum tempo, mas não em todo tempo”…

Carlos Vale - Membro da DORCB do PCP

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